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Aprendendo português com o Chisciotte de Alfredo Giannini

Arlindo José Nicau Castanho



I. Os Chisciotte de Giannini e de Bodini: duas versões em confronto



Alfredo Giannini não era “um homem do nosso tempo”. Terá sido, se tanto, aquilo que em português coloquial se chama um homem “do tempo da Outra Senhora”. É inútil procurá-lo na Treccani: seja Giannini, seja a Treccani, pertencem a um passado em que os tradutores – ainda quando enriquecessem as suas versões de muitas e preciosas notas, como no caso vertente – eram gente de pouca conta; praticamente tão anónimos quanto aqueles anónimos escribas encarregados da compilação de corriqueiras listas de armazém, em demótico ou em Linear B.

Ainda que o percurso existencial e filológico de Alfredo Giannini constitua um pequeno enigma votado ao geral desinteresse, a sua tradução do Quijote continua a circular na Itália dos inícios do século XXI como uma das mais populares: e isto, se bem que não tenha beneficiado de qualquer tipo de actualização desde 1927 (o que é uma pena, pois não seria difícil mondá-la, pelo menos, das muitas “gralhas” que a afligem). Uma das mais populares, porque é uma edição BUR, que normalmente associa ao preço acessível uma certa garantia de qualidade; e porque é uma das duas edições, entre as mais correntes, que oferecem ao leitor o prazer complementar das gravuras de Gustave Doré: provavelmente, até, de todas as 377 ilustrações originais[1] – ao contrário da edição “concorrente”, a da Einaudi (em dois volumes, como a da BUR), organizada por Vittorio Bodini, para a qual se limitaram a seleccionar 32 gravuras (18 por volume).

Vittorio Bodini, sim, encontramo-lo na enciclopédia: mas porque teve a ventura de associar às lides tradutivas um estro poético de reconhecida grandeza. Não seria de estranhar que a tradução do Quijote por Bodini fosse completamente ignorada na versão que a BUR oferece do mesmo texto, pois que Giannini já morrera há vinte anos quando Bodini propôs a sua, em 1957: mas mesmo assim encontramo-la mencionada na edição BUR, na Bibliografia preparada por Roberto Paoli, subcapítulo Principali traduzioni italiane. O que já nos pode parecer, em princípio, mais estranho é que a edição de Bodini não demonstre a mesma atenção para com a de Giannini: com efeito, na Bibliografia essenziale que precede o início da tradução do primeiro volume das aventuras do Cavaleiro da Triste Figura, na edição einaudiana, é inútil procurarmos qualquer referência à não despicienda empresa tradutiva de Giannini.

Este lapso tornar-se-á menos enigmático, se pensarmos que Giannini parece ter cultivado uma atitude de franco alinhamento com o fascismo e que Bodini, pelo contrário, foi um corajoso opositor ao regime, primeiro nas fileiras de Giustizia e Libertà e, depois, nas do Partito d'Azione. Seria contudo injusto reduzir as discrepâncias entre Bodini e Giannini à dimensão política: muitas outras discrepâncias, ao nível da metodologia (tradutiva, e não só) e das propensões estéticas, terão certamente contribuido para os tornar dificilmente conciliáveis.

Convém dizer, para começar, que a tradução de Giannini não é completa, ao contrário da de Bodini – o que é uma pena, pois que tão pouco faltou a Giannini para alcançar esse objectivo primordial: na verdade, a sua edição do Quijote só não é integral porque ele decidiu ignorar de todo as “poesias de pé quebrado” (designação esta que, em português, não se aplica apenas às que em espanhol se dizem de cabo roto) entaladas entre o Prólogo e o Capítulo I da Primeira Parte, com o argumento de que se trata de «versi di ben poco interesse, bislacchi (...); componimenti che, secondo lo stesso Rodríguez-Marín < no guardan la mayor congruencia con lo que sucede en la obra > e che, spesso oscuri, enigmatici anzi, richiederebbero pagine e pagine di noiose dilucidazioni»[2].

É uma pena, com efeito, que quem nos brinda com tantas e tão profusas notas, nalguns casos de importância discutível[3], e com a tradução (mais do que devida, sem dúvida) de todas as outras versalhadas que infestam o Quijote, tenha decidido assim, de ponto em branco, que aquela dúzia de poesíolas introdutórias não merecia o esforço duma tradução: decisão precipitada que fez ficar Giannini, pelo que diz respeito à possibilidade da tradução integral que na verdade teve entre as mãos, como Moisés à vista da Terra Prometida, ou como Aníbal em Cápua... O mesmo sucedeu, aliás, com a tradução do Quijote levada a cabo por Federico Carlesi, a qual cronologicamente se situa entre a de Giannini e a de Bodini (e, essa, já citada na Bibliografia essenziale deste último); de modo que os responsáveis pelas mais recentes edições da “versão Carlesi”, Cesare Segre e Donatella Moro Pini, tiveram que recorrer à tradução das poesias introdutórias feita por Bodini, para assim completarem a edição Mondadori do Chisciotte.

Certamente não agradou a Bodini (ainda que este, oriundo de Lecce, fosse uma espécie de “florentino de adopção”[4]) o uso exagerado que, na sua tradução, Giannini fazia de toscanismos a tal ponto esconsos que alguns só se encontram no Tommaseo, e outros nem sequer aí mas só no Battaglia, com um pouco de sorte: é o caso, por exemplo, da rapacchiotta com que Giannini traduz a rapaza do cap.VI da 2.a Parte[5]. Giannini propõe-nos, na verdade, um italiano ribobolaio (com o que também eu recorro, neste caso, a um termo toscano que designa precisamente o abuso de toscanismos, isto é, as “toscanices”); o que obrigará o leitor italiano médio a fazer-se continuamente acompanhar por vários dicionários – e dos mais ponderosos – da sua própria língua, se quiser compreender integralmente o Chisciotte de Giannini; o que não é prático, não é simpático, nem sequer é lá muito justo.

Para esse tipo de leitor, a edição einaudiana de Bodini apresenta só vantagens. Mas o mesmo se não passará necessariamente comigo, que sou estrangeiro e raramente me impaciento com as dificuldades interpretativas suscitadas pelo casticismo de Giannini: com ele aprendo italiano e, não raro, até português, o que é afinal o motivo por que lhe dedico este artigo.

Pode-se comparar o Chisciotte de Bodini com um prato ligeiro, cem por cento tradicional – como os spaghetti al pomodoro, por exemplo – e no fundo, se não propriamente “dietético”, pelo menos indiscutivelmente “são”, no sentido de que é compatível com quase qualquer regime alimentar. Tenha-se em conta, porém, o exagero aproximativo – mas funcional ao meu discurso – que preside a tal comparação: na verdade, a versão de Bodini está bem longe de se poder apodar de anódina, como penso poder demonstrar com um exemplo respigado no mesmo campo semântico, o da gastronomia.

O caso vertente é o da tradução dum passo do capítulo LXVII da 2.a Parte, no qual Sancho Pança, respondendo à veleitária proposta de D. Quixote de ambos se fazerem pastores, segundo o estereótipo arcádico, sabota (consciente ou inconscientemente, quem sabe?) o discurso do seu amo, exprimindo diplomaticamente as suas dúvidas sobre a exequibilidade do projecto e puxando a conversa para o que mais lhe interessa, isto é, para o voluptuoso domínio dos comes e bebes: – Yo soy, señor, tan desgraciado que temo no ha de llegar el día en que en tal ejercicio me vea. ¡Oh, qué polidas cuchares tengo de hacer cuando pastor me vea! ¡Qué de migas, qué de natas, qué de guirnaldas y qué de zarandajas pastoriles, que, puesto que no me granjeen fama de discreto, no dejarán de granjearme la de ingenioso! O que Giannini traduziu, pelo que concerne à parte que sublinhei, com Che panzanelle, che panne, che ghirlande e quant'altre pastorali cianciafruscole, e Bodini com Che panzanelle, che panna, che ghirlande, che pastorali intingoli...

Passando rapidamente por sobre o pormenor de que me parece muito mais adequada – porque imediatamente compreensível, não susceptível de equívocos interpretativos – a panna de Bodini do que as panne de Giannini, o aspecto mais importante é que este último traduz zarandajas com cianciafruscole, um sinónimo algo arrevesado de cianfrusaglie: o que será talvez muito castiço, mas pouco fiel à riqueza semântica do termo espanhol; o qual, para além de tal senso (o dos italianos bagattelle, bazzecole, inezie), significa ainda «(prov.) avanzi... rimasugli... della macellazione» (Ambruzzi). É claro que, no discurso de Sancho, este segundo sentido deve ser tido em consideração – coisa que Giannini não faz. Melhor, pois, a tradução do Bodini com intingoli, que dão a ideia de uma preparação culinária especiosa: dum petisco que, tendo provavelmente nascido como exclusivamente vegetariano[6], com o passar do tempo acabou, pelo menos em certas suas versões, por chegar a assemelhar-se com a turinesa finanziera[7].

Isso não invalida que, em relação à de Bodini, a versão de Giannini me pareça muito mais legitimamente associável, não a um prato ligeiro como os spaghetti al pomodoro, mas a um tão temível quão cativante cozido à portuguesa[8] (que é o mesmo que um caldo galego, e quase idêntico a uma olla podrida): em suma, um triunfo de carnes variegadas, de sápidos legumes e de enchidos deletérios que acaba por redundar fatalmente irresistível, na sua exuberante sumptuosidade. É claro que, entre os dois “pratos” propostos respectivamente por Bodini e por Giannini, me excita mais a gula o segundo que o primeiro, ainda que saiba que este último não é lá muito equilibrado nem de fácil digestão.

Associando esta comparação do foro gastronómico à anterior referência ao italiano ribobolaio de Giannini, é de notar que a sua versão do Quijote dá sinais de um certo hibridismo dialectal precisamente quando se trata de traduzir olla podrida: soberbo prato único que Giannini pensa poder identificar com a minestra maritata (Bodini deixa o original olla podrida em itálico, o que é a solução mais correcta[9]); quando, pelo contrário, a olla podrida só se poderia provavelmente assemelhar, em Itália, a uma minestra maritata napolitana ou alla partenopea – precisação que Giannini não faz. Trata-se portanto, neste caso, duma contaminação dialectal campana em franca contradição com as suas habituais tendências toscanizantes; contaminação essa que de modo algum pretendo desculpar mas que desejaria tornar, pelo menos, compreensível, com a apresentação dos poucos elementos biográficos de Giannini que me foi dado colher.



II. O hispanista Giannini



O exemplo de contaminação dialectal que acabo de relevar representa, na versão que Giannini nos oferece do Quijote, um caso isolado ou, pelo menos, bastante raro; mas nem por isso deixa de ser particularmente significativo. Esse pecadilho contra a coerência linguística encontrará, se não uma justificação, pelo menos uma atenuante na circunstância de o nosso tradutor ter passado boa parte da sua existência em Nápoles. Com efeito, tendo nascido em Pisa em 1865, Giannini terá sido professor de Literatura Italiana em vários liceus, um pouco por toda a Itália, até se estabilizar enfim nos liceus de Nápoles, entre os quais o «Umberto». Nessa cidade se teria começado a dedicar à tradução de “clássicos” espanhóis, trabalho que levou avante pelo resto da vida e que estreou em 1912, com a tradução de seis das doze Novelas ejemplares cervantinas para os prelos da Laterza de Bari. Com o editor Carabba, de Lanciano (Chieti), publicou em 1915 a sua versão dos Entremeses, sempre de Cervantes. As traduções sucedem-se daí por diante a ritmo cerrado, pelo que me limitarei a recordar a que em 1918 aprontou do Buscón, que publicou em Roma, com o título de Vita del Pitocco, na bela colecção «Classici del ridere» do tão espirituoso quão infeliz Formiggini.

Na verdade, muito pouco teria eu podido apurar sobre a vida e a obra de Alfredo Giannini, se a providencial World Wide Web me não tivesse posto a par da existência dum opúsculo dedicado ao mesmo, oferecendo-me até a possibilidade de encomendá-lo e de entrar na sua posse. Trata-se de um volumezinho de escassas 22 páginas, assinado por Beatrice Palumbo Caravaglios (outra “ilustre desconhecida” sobre a qual nada mais me é dado saber[10]) e intitulado Ricordando Alfredo Giannini. Publicado por aquela que foi, por tantos anos, a casa editora de Giannini, a florentina Sansoni, o modesto elogio fúnebre expõe na capa e no frontespício a data de 1939. Podemos, assim, presumir que o passamento de Giannini se terá provavelmente verificado nos finais de 1938, ou no início de 1939: o opúsculo de Beatrice Palumbo Caravaglios não é explícito a esse respeito.

O que parece certo é que em 1920 – aos 55 anos, portanto – Giannini começou a ensinar na Universidade de Nápoles, como leitor de Língua Espanhola; cargo que exerceu em acumulação com o de titular da cadeira de Língua e Literatura Espanhola, no Instituto Superior de Comércio da mesma cidade. Talvez graças – pelo menos, em parte – à sua alegada adesão ao regime de Mussolini (Caravaglios, p. 12), de há pouco no governo[11], Giannini vê-se, em 1923, director do Instituto Italiano de Cultura em Barcelona. Aí teria levado a cabo a tradução do Quijote de que nos vimos ocupando: pelo menos é quanto pude apurar, graças ao particular testemunho daquela sua tão piedosa quão lacónica encomiasta.



III. Pistas para a resolução de problemas etimológicos do Português,
veiculadas pela tradução de Giannini



Um percurso mais linear e natural teria sido o de ler o Quixote no original, de preferência numa boa edição anotada, e daí inferir o que eventualmente ocorresse em prol do estudo da evolução da língua portuguesa. Mas as coisas raramente se demonstram lineares e “naturais”, na relação que um português estabelece com a cultura espanhola – a não ser que se trate de um tipo de português relativamente raro, com larga experiência da Espanha e fortes laços com a mesma; o que, devo confessar, até agora não tem sido o meu caso, infelizmente. Em princípio, seria ainda mais natural partir das traduções portuguesas da obra-prima cervantina, mas sobre aquelas que conheço creio seja preferível fazer cair um distraído silêncio.

Acabei por chegar ao original espanhol, portanto, através das versões italianas do mesmo; mas o mais importante não é o como lá cheguei: o importante é ter lá chegado – e a versão italiana de Giannini, com as suas notas abundantemente impregnadas de tantas leituras preciosas e hoje nem sempre de fácil acesso, representou para mim, sem dúvida, a mais saborosa e a mais poliédrica das pontes para a sucessiva fase da directa abordagem do original cervantino.

O bilinguismo luso-espanhol – exercido sempre unilateralmente por parte dos portugueses em relação ao espanhol e nunca em senso inverso, convém sublinhar – foi uma realidade fundamental e constante da cultura do meu país, pelo menos desde os tempos de Gil Vicente até aos de Francisco Manuel de Melo. Mas, após a recuperação da independência política portuguesa em 1640, foi-se desenvolvendo uma cada vez mais forte tendência isolacionista em relação à vizinha Espanha. Se a literatura espanhola passou, daí por diante, a ser sempre menos conhecida em Portugal, ainda mais compreensivelmente se desterraram para o limbo da memória colectiva as obras que alguns grandes escritores portugueses redigiram directamente em espanhol: como sucedeu (e vem sucedendo ainda) com a ampla produção literária em língua castelhana do já referido Francisco Manuel de Melo (e não é que a sua produção literária em língua portuguesa venha sendo tratada com muitos mais desvelos); e como também sucedeu com a famosa Diana de Jorge de Montemor, que só com o início deste terceiro milénio chegou aos escaparates das livrarias do seu país natal, pela primeiríssima vez vertida na lusitana língua – cerca de quatrocentos e cinquenta anos após a edição original....

O espanhol funcionou, contudo – do reinado de D. Manuel à Restauração, pelo menos –, como o mais importante adstrato do português, nesse longo período; e digo adstrato, porque tenho a impressão de que nem sequer no período da dominação filipina a língua castelhana se impôs, ou procurou impor, como um superstrato propriamente dito. Estou em crer, pois, que muitas dívidas linguísticas do português para com o espanhol, devidas ao nosso prolongado (e nem sempre forçado ou subordinado) contacto com a Espanha, foram e continuam a ser recalcadas – quando não simplesmente ignoradas, por puro desinteresse ou desleixo. É por isso que a leitura dos clássicos espanhóis, para começar, e, em senso mais lato, o reavivar de uma atenção há tanto quase extinta para com a cultura do país vizinho, se me afiguram como fundamentais para a cabal explicação de termos e expressões nossas, que continuam a resistir aos mais estrénuos esforços de rastreio das suas origens.

Passemos portanto, finalmente, aos casos em que a leitura do Chisciotte de Giannini me sugeriu mais profundas reflexões lexicológicas no âmbito específico do português.


1. Correr Ceca e Meca

No início do cap. XVIII da 1.a Parte, desmoralizado pelo manteamento que acabava de sofrer, Sancho sugere ao seu amo que seria melhor deixarem-se de aventuras e tornarem a penates. O passo soa assim, na tradução do pisano:

«Di tutta questa faccenda ciò che veggo chiaro è che queste avventure di cui andiamo in cerca, ci dovranno, alla fin fine, apportare tante disavventure da non saper più quale sia il nostro piede destro. La meglio sarebbe e la più indovinata, secondo il mio poco giudizio, di tornarcene al nostro paese, ora che è il tempo della mietitura e di badare ai nostri affari, smettendola d'andare vagando di qua e di là, dal pero al fico, come si dice» - Giannini, I, p. 150.

Eis, por sua vez, o texto original:

«Y lo que yo saco en limpio de todo esto es que estas aventuras que andamos buscando al cabo al cabo nos han de traer a tantas desventuras, que no sepamos cuál es nostro pie derecho. Y lo que sería mejor y más acertado, según mi poco entendimiento, fuera el volvernos a nuestro lugar, ahora que es tiempo de la siega y de entender en la hacienda, dejándonos de andar de Ceca en Meca y de zoca en colodra, como dicen» - Blecua/Pozo, p. 157.

Giannini achou por bem acompanhar a sua expressão «vagando di qua e di là, dal pero al fico» com uma nota explicativa (a n.° 113 do volume), que assim reza:

«Andar de ceca en meca y de zoca en colodra, dice il testo: un'espressione proverbiale che deriva, nella prima parte, dalle peregrinazioni dei maomettani alla celebre moschea della Mecca, e all'altra pur famosa di Córdova [sic], chiamata appunto ceca (propriamente < zecca, altare o reliquiario > in arabo). Men chiaro appare il detto popolare nella seconda parte. Zoca e colodra sono nomi di recipienti usati dai pastori per mungere e per travasare il latte; l'uno (zoca) di legno, l'altro (colodra) di corno di bove, senza la punta. Dall’usare ora l’uno ora l'altro o l’un dopo l’altro, a vicenda, dovette forse nascere questo modo di dire» - Giannini, I, p. 589.

Existindo em português só a expressão correr Ceca e Meca mas nada que assemelhe, nem de perto nem de longe, ao segmento de zoca en colodra, poderia eu prescindir muito simplesmente de abordar este último; mas, já que a precisação não é longa e vem a talhe de foice, convém sublinhar que é bastante duvidosa a interpretação giannínica dessa segunda parte – facultativa – da expressão idiomática (e não espressione proverbiale ou detto popolare, como o tradutor impropriamente a etiqueta): não só porque dificilmente casaria bem, do ponto de vista dos campos semânticos mobilizados, com a da primeira parte da locução, mas principalmente porque outras vozes prestigiadas se levantam, dedicando-lhe interpretações aparentemente mais plausíveis: «de la plaza (zoco) a la taberna (colodra, que propiamente es la calabaza de vino)» – Riquer, p. 160, n. 3; «De zoca en colodra, de plaza en taberna» – Allen, p. 25.

Rodríguez Marín, por sua vez, preferiu remeter a sua interpretação da segunda parte da locução, sobre a qual comenta que «hay no poco que hablar de tal frase» (Rodríguez Marín, III, p. 73), para a sua edição «extensamente comentada del Quijote» (Id., ibid.). Não conheço, porém, outra sua edição do mesmo livro ainda mais «extensamente comentada» do que esta aqui citada, a qual, de per si, já se cifra na impressionante mole de oito volumes. Mas o eminente cervantista é menos lacónico a propósito da expressão que particularmente nos interessa, isto é, a que é comum ao espanhol e ao português: «Ceca— dice Covarrubias— se llamó “cierta casa de devoción en Córdoba, á do los moros venían en romería y de allí se dijo andar de Ceca en Meca”. Cejador, en su Diccionario del Quijote, añade que, se bien Ceca en arabe es la casa de la moneda y se llamó también así la mezquita de Córdoba, por lo cual andar de Ceca en Meca se parece al andar las estaciones, a peregrinar a los dos famosos santuarios musulmanes, “hay la dificuldad de que falta el artículo, pues se hubiera dicho de la Ceca a la Meca...” Así, cabalmente, lo dice el vulgo en Andalucía...» – Id., ibid.

Parece, pois, que o legítimo escrúpulo de Cejador se pode considerar ultrapassado, se fizermos fé na observação de Rodríguez Marín segundo a qual o povo andaluz recorre justamente aos artigos, antes dos substantivos em questão (e amigos espanhóis me confirmam que o mesmo sucede noutras regiões do país). Propendo também, e fortemente, para a origem espanhola da equivalente locução lusitana, em que andar de é substituído por um ainda mais ágil e sugestivo correr. Seja porém claro que, quando atribuo origem espanhola a Correr Ceca e Meca, nada faço de absolutamente original, encontrando-me, ao invés, na óptima companhia do erudito e penetrante Antenor Nascentes (uma glória da lexicologia portuguesa, injustamente pouco frequentada nestes tempos):

«Do ár. sìkka, troquel, abreviatura de dar assikka casa do troquel. Havia em Córdova uma célebre Casa da Moeda árabe; daí a expressão de Ceca em Meca para designar de um extremo a outro, do extremo ocidental do Islam ao oriental. A locução também existe em Espanha (de ceca en meca) e é provável que de lá tenha vindo. Para Fr. Domingos Vieira a locução se refere a Asseca e Meca, povoações que diz próximas de Santarém (a locução portuguesa tem às vezes um addendum e olivais de Santarém). A. Coelho (Portugalia, I, 490) explica também seca por Asseca e meca como Meca de Alenquer, que aliás não fica perto de Santarém. Garrett (Viagens na minha terra, I, cap. IX) explica igualmente com localidade portuguesas. A. Coelho (ibidem) opina que a locução passou de Portugal para a Espanha. Se a locução é portuguesa, então, observa José Maria Adrião, RL [«Revista Lusitana»], XX, 304, Meca deve ser a do concelho de Viana do Castelo e Asseca a da freguesia de S.Tiago de Tavira, localidades em pontos opostos de Portugal. João Ribeiro, Frases Feitas[12], I, 218, aceita a interpretação espanhola, interpretando ceca como a mesquita de Córdova. A Academia Espanhola tira ceca do berbere azzekka, casa, povo, e não de sikka» – Nascentes, s. v. Ceca-e-Meca.

José Pedro Machado acena igualmente a uma provável origem espanhola da expressão portuguesa, mas ainda com maiores cautelas: «... parece ter vindo do castelhano, onde há: De Ceca en Meca e De la Ceca a la Meca. Não há uniformidade de opiniões acerca do que seja e da origem da forma Ceca naquelas locuções. Não é, porém, impossível que se trate do voc. cast. Ceca (o que comprovaria a origem do dito nesse idioma...» – Machado 1981, s. v. Ceca.

Vê-se mais avante, no mesmo artigo do Dicionário Etimológico de Machado, que o lexicógrafo algarvio, neste caso concreto e ao contrário do que faz em tantos outras circunstâncias, não alinha pela opinião de uma das suas fontes privilegiadas, o fundamental mas nem sempre inteiramente satisfatório Corominas. Este, com efeito, após exprimir a probabilidade de que Ceca seja um termo árabe “exportado” da Itália para Espanha, através da Sicília - uma hipótese corroborada pelo facto de se encontrar a primeira atestação do termo num documento castelhano redigido precisamente na Sicília, em 1511, e pela ausência do artigo árabe aglutinado -, avança uma pouco ou nada convincente explicação para a presença de tal termo (que segundo ele valeria apenas por moeda) na locução de Ceca en Meca: «En la frase De Ceca en Meca o de la Ceca a la Meca (...), se trata de la misma palabra, elegida por su consonancia con la Meca, lugar célebre por su lejanía, y perteneciente al mundo árabe como ceca» - Corominas, s. v. Ceca.

A hipótese de Corominas, no fundo, nada tem de extravagante: basta pensar no ditado português Roma e Pavia não se fizeram num dia, em que o segundo topónimo parece ter sido escolhido só porque rima com dia. Mas a outra hipótese, que põe em jogo o santuário de Meca e a mesquita de Córdova, é mais sugestiva e assenta como uma luva às situações em que se aplica, resultando, assim, francamente convincente. E depois, à falta de provas em contrário, neste caso é grande a tentação de murmurar entre dentes que se non è vero, è ben trovato.

Quanto à provável origem espanhola da expressão, estou quase certo dela: com o que exacerbo a tendência interpretativa cautelosamente proposta por Machado – e aliás já antes proposta por Nascentes, com maior convicção. Estou em crer, até, que esta Ceca e Meca terá entrado em Portugal nos séculos XVI ou XVII, ainda que tal impressão pouco possa valer, na ausência de confirmações documentais. O que é certo e seguro é que Machado não lhe encontrou nenhuma ocorrência anterior ao Grande Dicionário Português ou Tesouro da Língua Portuguesa de Domingos Vieira, i. e., a 1873. Como já se viu, Nascentes conseguiu fazer um pouco melhor, retrodatando a ocorrência a 1846, que é como quem diz, ao ano da publicação de Viagens na Minha Terra. Refira-se ainda que outro grande lexicógrafo brasileiro, Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, dedica a Ceca, no seu imprescindível Novo Dicionário da Língua Portuguesa, um verbete muito completo e elucidadivo, onde não faltam sequer as atestações literárias da expressão: são citações de escritores brasileiros de primeira água, sem dúvida, mas infelizmente posteriores às datas já referidas.

Convém realçar que, dos dicionários comuns que tenho consultado, o Holanda Ferreira (popularmente conhecido como o Aurélio) é um dos poucos que, na esteira de Nascentes, regista a versão mais longa do dito: correr ceca e meca e olivais de Santarém. Esta já se encontrava na primeira atestação encontrada, isto é, a de Garrett, que passo a citar. O narrador-viajante de Viagens na Minha Terra prossegue deste modo com as suas digressões, após nos ter informado de que chegara à ponte da Asseca, entre o Cartaxo e Santarém:

«Ora donde veio este nome da Asseca? Algures aqui perto deve de haver sítio, lugar ou coisa que o valha, com o nome de Meca; e daí talvez o admirável rifão português que ainda não foi bem examinado como devia ser, e que decerto encerra algum grande ditame de moral primitiva: < andou por Seca (Asseca?) e Meca e olivais de Santarém >. – Os tais olivais ficam logo mais adiante. É uma etimologia como qualquer outra.» – Garrett, pp. 128-9.

Como se vê, Garrett não toma muito a peito a questão etimológica, sabendo bem quantos inúteis enigmas e quantas disputas ociosas, tantas vezes irresolvíveis, se aninham neste tipo de pesquisas. Isso não o impede de pender claramente para a completa “nacionalização” da expressão – tendência agudizada, em seguida, até aos extremos patrióticos (ou patrioteiros?) de Adolfo Coelho e de José Maria Adrião que já referi, citando Nascentes. O brilhante estilo e o amor à terra lusa do grande Garrett não bastam, porém, para acreditar essa pista: na verdade, na expressão portuguesa ocorre sempre Ceca, e nunca Asseca. Existe, porém, um argumento de peso a favor da hipótese de Garrett, a continuação opcional e olivais de Santarém: mas penso que essa espécie de apêndice poderá resultar, simplesmente, dum certo estro linguístico de veia humorística, sobre o qual darei, em seguida, indicações mais precisas.

O português não desdenha empregar o seu sentido de humor na deformação de frases feitas que acabam, assim, por ser ressemantizadas num senso burlesco. O problema é que nalguns casos, com o passar dos tempos, o intuito caricatural que presidiu a essa espécie de anamorfose linguística deixa de ser notado pela maioria, se não mesmo pela totalidade dos falantes, que já não se dão conta, sequer, da distorção praticada. As novas expressões assim formadas nascem, pois, como private jokes; em seguida, deixam de ser private; quando caem por fim, inapelavelmente, na generalização completa do domínio público, deixam até de ser jokes... Penso encontrar um exemplo elucidativo dessa dinâmica na génese da expressão adeus minhas encomendas, com a qual se exprime uma espécie de bonacheira resignação perante uma desilusão ou um fracasso.

Eis o que rezam, a propósito dela, os artigos dedicados a encomenda no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea e no Novo Dicionário da Língua Portuguesa: «adeus minhas encomendas!, Fam., expressão interjectiva usada para indicar que tudo está perdido» – Malaca Casteleiro; «Adeus, minhas encomendas! Fam. Babau!; foi-se!; adeus, minha viola!» – Holanda Ferreira. Muito provavelmente a expressão nasceu duma distorção de a Deus me encomendo[13]: primeiramente, uma expressão de brando desespero e de filosófica aceitação dos fados, em seguida desfigurada, de propósito, numa expressão mais comezinha e “mercantil”; na qual, por um lado, se fez com que Deus saísse de cena e, por outro, se passou a exprimir uma preocupação exclusiva com perdas de carácter material. E o mais interessante é que, se o senso bonacheirão e bem humorado permanece sempre associado ao uso desta última expressão, no entanto já de todo se extinguiu, na consciência de quem a emprega, a memória do jogo verbal que presidiu à sua formação.

Penso que algo de semelhante terá sucedido com o acrescento de e olivais de Santarém à expressão correr ceca e meca. A escolha desse sintagma específico, e olivais de Santarém, poderia explicar-se pelas evidentes implicações islâmicas da expressão-base, pela assonância de Ceca com Asseca (para não falar da consciência da existência de algumas Mecas em território nacional) e pela vívida memória colectiva do peso da herança genética e cultural muçulmana, na zona de Santarém. Mas o mais importante neste processo “confusionista” é a sua finalidade de camuflar a origem da expressão: efectivamente, com a introdução do apêndice postiço e olivais de Santarém, não só se produziu um bom mot d'esprit como – melhor, ainda – a sua origem espanhola deixou de ser perceptível...


2. pôr os pés em polvorosa e dar às de vila-diogo/tomar as de vila-diogo

No início do cap. XXI da 1.a Parte, depois de D. Quixote ter posto em fuga o barbeiro e apresado a bacia que, na sua opinião, é o elmo de Mambrino (estropiado por Sancho em elmo de Martino), deve-se então decidir o que fazer do burro abandonado pelo barbeiro no “campo de batalha”. Diz Sancho, na versão de Giannini:

«... mi dica vossignoria cosa dovremo fare di questo... asino bigio, qui abbandonato da quel tale Martino che vossignoria ha atterrato. Da come ha battuto il tacco e se l’è svignata, non pare che ci sia pericolo che torni mai più a riprenderlo» - Giannini, I, p. 187 (sublinhados meus).

E é precisamente a expressão sublinhada que dá azo a uma elucidativa nota do tradutor:

«Il testo ha: puso los pies en polvorosa y cogió las de Villadiego. Delle due espressioni, la prima è dell’antico gergo furbesco o di germania [sic] in cui polvorosa voleva dire < la via piena di polvere >. Significava fuggire, battersela.... Di tomar o coger las de Villadiega [sic], modo di dire ancor vivo nel parlar familiare, per < darsela a gambe, svignarsela (...) > e simili, è incerta l’origine, per quanto vi si sia scritto su. Las de Villadiego sta per las calzas de V. ovvero las alforjas de Villadiego, nome questo di un paese dove in antico fu fiorente l’industria delle bisacce (alforjas), mentre la vicina Barruelo era rinomata per calzoni da viaggio. Cfr. un articolo di Domingo Hergueta in Revista Castellana, marzo, 1919, n. 30, pag. 58. Per altri, Villadiego potrebb’essere nome proprio o di fabbricante o di qualche, diremmo oggi, podista salito in rinomanza fra i suoi conterranei» - Id., ibid., pp. 592-3.

Ora, o que é verdade é que as duas expressões já tinham aparecido antes no Quijote, se bem que em versões ligeiramente diversas; e logo no início da obra, numa daquelas poesias introdutórias que tanto Giannini como Carlesi acharam por bem não traduzir: mais precisamente, naquela de cabo roto atribuída ao Donoso, poeta entreverado, e dedicada a Sancho Panza y Rocinante. É, pois, uma pena que Giannini não tenha sequer recordado esta anterior ocorrência, na profusa nota que acabo de citar.

Deixando o que na dita nota omite e passando ao que nela diz, devo confessar que as elucubrações veiculadas por Giannini acerca de Villadiego me parecem excessivamente arrebicadas para poderem verosimilmente corresponder à verdade, se nos ativermos - como em circunstâncias do género me apraz fazer - ao velho princípio que dá pelo nome de “rasoura de Occam”. Aliás, muitos outros comentadores se têm facilmente deixado embrenhar nos labirintos nevoentos da origem de tal expressão. Prefiro, pois, fazer minha a sóbria leitura de Joaquín Forradellas, o qual, comentando a primeira ocorrência desta expressão no Quijote, a interpreta muito simplesmente como «escapar de prisa y corriendo, sin esperar ni a ponerse las calzas» - in Rico, I, p. 29, n. 3.

Mas respeitemos a ordem dos elementos e tornemos um pouco atrás: em polvorosa, no sentido de ‘em grande azáfama’, e pôr os pés em polvorosa, no sentido de ‘fugir precipitadamente’, ainda hoje se mantêm relativamente correntes em Portugal. Quanto à origem dessas locuções, Machado (em Machado 1981) pouco mais faz do que indicar banalmente que polvorosa provém «de pólvora», adiantando apenas como única, mas preciosa informação suplementar que a palavra já era atestada no «séc. XVI, segundo Morais». Indo então consultar o verbete que ao lema se dedica no Morais – isto é, no Diccionario da Lingua Portugueza de António de Morais e Silva –, aprende-se que a expressão pôr os pés em polvorosa já era empregada na Ulisseia ou Lisboa Edificada de Gabriel Pereira de Castro, de 1636 (no séc. XVII, portanto, e não no séc. XVI como Machado indicava). Tendo em conta a data da primeira ocorrência, não restam grandes dúvidas sobre a origem espanhola da expressão: no máximo, se quisermos manter uma científica reserva, poder-se-á pressupor a existência de uma gíria comum à malandragem de Espanha e de Portugal, na época, adiando assim para as calendas gregas a atribuição de qualquer nacional primazia.

Ainda a este propósito, resulta engraçado e particularmente significativo o verbete que Nascentes dedica a polvorosa: «Do esp. polvorosa, empoeirada. Em esp. também existe locução correspondente à portuguesa: poner pies en polvorosa (...)». Como se vê, o termo é dado como de origem espanhola, mas a expressão em que mais frequentemente ocorre «também existe» em espanhol... Não estará a inverter a ordem dos factores, nesta segunda asserção? Parece que, apesar de brasileiro, e não português, por vezes enferma da mesma miopia hispanofóbica que frequentemente tem caracterizado a cultura lusitana...

No que diz respeito a dar às de vila-diogo/tomar as de vila-diogo, não restam dúvidas quanto à origem espanhola das expressões, ainda que Machado ignore tal proveniência: «Vila-Diogo, na locução dar, tomar às [sic] de Vila Diogo, tem origem obscura; no séc. XVII: «o matalote da cadeia, tanto que o viu debaixo da água, tomou às de vila-diogo com todo o fato... sem lhe deixar rasto, nem pegada por onde o seguisse...», Arte de Furtar, cap. 33, p. 278» - Machado 1981, s. v. Vila. Oxalá José Pedro Machado tivesse feito, neste caso, o que diz num artigo sobre Nascentes[14]; isto é, oxalá tivesse consultado o dicionário deste seu «mestre e amigo», com o qual tanto declara ter aprendido[15]: porque, neste caso como em tantos outros, o verbete de Nascentes é ainda preferível ao seu. Senão, vejamos:

«Vila-Diogo - Aparece na locução dar as [sic] de Vila Diogo, em que João Ribeiro, Frases Feitas, I, 16-9, vê elipse da palavra calças, no sentido etimológico de meias, q. v. O espanhol tem as locuções cojer las de villa-diego, tomar las de villa Diego, que aparece completa na Celestina: tomar calzas de Villa Diego. V. G. Viana, Apost., II, 540-2.» - Nascentes, s. v. Vila-Diogo.

Estes últimos parágrafos não devem ser entendidos como uma crítica ao ciclópico e indispensável trabalho levado a cabo por Machado; até porque, se neste caso não teve na devida conta o verbete de Nascentes, por outro lado soube localizar, para nosso proveito, a ocorrência da expressão na Arte de Furtar (e bem gratos lhe devemos estar, por este e por tantos outros preciosos rastreios). É verdade que não tomou em conta a referência de Nascentes à Celestina - nenhum ser humano pode compulsar todos os artigos de todos os dicionários, para todos os termos -, mas neste caso também não foi ajudado pelo seu constante vade-mécum, o Corominas, pois que este não faz a mínima referência à expressão, nos verbetes que dedica a Villa e seus compostos.

As primeiras atestações espanholas são de finais do séc. XV, inícios do séc. XVI - período em que surgem as primeiras edições da Celestina -, enquanto a primeira atestação portuguesa - a referida por Machado, a da Arte de Furtar - pode muito verosimilmente ser datada de 1652[16]: com o que não restam dúvidas, espero, quanto à origem espanhola da expressão. Chame-se ainda a atenção para o facto de que a já mencionada interpretação de Forradellas para o dito espanhol, entendido como «escapar de prisa y corriendo, sin esperar ni a ponerse las calzas» – interpretação que, como já antes referi, faço minha sem reservas – é plenamente corroborada por um dos autores citados no verbete de Nascentes, Gonçalves Viana. Este abalizado investigador foi ainda mais longe na análise do passo da Celestina do que Forradellas na sua nota ao Quijote (o que não é uma crítica a Forradellas, que estava anotando o Quijote, não a Celestina), ou do que as comentadoras da edição da Celestina que consultei (v. Rojas, p. 258, n. 7); pois que, ao contrário destas últimas e de tantos outros que citam A Celestina a propósito de tomar calças de Villadiego, teve a boa ideia de não isolar a universalmente reproduzida frase de Sempronio, dedicando, pelo contrário, igual atenção à sucessiva resposta de Parmeno:

«Diz Semprónio para o companheiro:– < Anda, no te penen a ti esas sospechas, aunque salgan verdaderas. Apercibete, a la primera boz que oyeres, tomar calças de Villadiego > –.

«Responde Parmeno: – < Leydo has donde yo; en un coraçon estamos. Calças traigo, y aun borzeguies desos ligeros que tu dizes, para mejor huyr que otro > –[17].

«Por este diálogo ficamos sabendo já qual é o substantivo feminino plural, que no prolóquio castelhano está elidido; acrescentado a ele, resulta a seguinte expressão: tomar las calzas de Villadiego, isto é, ningunas; e como comentário do outro interlocutor, nem calças nem borzeguins, portanto pernas e pés, descalços, para correr mais à vontade.

«A frase castelhana deve pois interpretar-se: – tomar las piernas, e a portuguesa – dar às pernas, correspondendo ambas a fugir a sete pés, modo de dizer este último que também carece de explicação satisfatória» – Gonçalves Viana, II, p. 542[18].

E Gonçalves Viana pulveriza quaisquer eventuais resquícios de dúvida sobre a proveniência espanhola das expressões em que comparece Vila-Diogo, com o seguinte comentário incontestável:

«Na realidade, com este nome há em Espanha uma vila na província de Leão, e um lugar na de Burgos; e como nenhuma vila ou outra povoação ou localidade existe em Portugal, que tenha por nome Vila-Diogo, segue-se que a locução é simplesmente traduzida para português, a ele acomodada, e alterados os termos, mas não o significado» – Gonçalves Viana, II, p. 540.

Acrescente-se que o raciocínio de Gonçalves Viana sobre os topónimos é plenamente extensível aos patronímicos, pois que Vila-Diogo, Viladiogo ou algo que lhes assemelhe são nomes de família de todo desconhecidos, no território nacional.


3. pondo termo às pesquisas etimológicas: peralvilho, envidar esforços

Seria uma pena que, após tantas aturadas leituras e releituras do Quijote, em traduções e no original, eu acabasse por desatender os irónicos “avisos à navegação” que Cervantes, detrás da máscara de Cide Hamete Benengueli, melifluamente formula a propósito das especulações sobre a origem dos apelidos e quejandas divagações etimológico-genealógicas, no primeiro parágrafo do cap. XXXVIII da 2.a Parte. Por isso mesmo, deixo de lado umas quantas questões menores e pouco produtivas (como, por exemplo, tudo quanto se poderia prodigalizar acerca de barato, termo de origem enigmática ao qual Giannini atribui uma etimologia muito estranha) para me ater a duas achegas concretas, ainda que uma represente uma mera pista e só a outra uma certeza.

O primeiro caso é o do substantivo português peralvilho, que quase todos os dicionários reportam como «de origem obscura». Registem-se, porém, as honrosas excepções constituídas por Machado, que em Machado 1981 fala de peralvilho como «provavelmente de origem castelhana» – atestando-o pela primeira vez no séc.XVIII, no Hissope de Cruz e Silva –, e por Nascentes, no verbete que ao termo dedica e que, apesar de anterior ao já reproduzido de Machado, apenas introduzirei um pouco mais avante. Baste-nos assinalar por agora que Peralvilho é um topónimo espanhol, «una cittadina presso Ciudad Real, dove venivano saettati i malfattori condannati a morte dal tribunale della Santa Fratellanza o Confraternita», como refere Giannini em Giannini, II, p. 664, comentando em nota (a n.° 176) um passo do cap. XLI da 2.a Parte, no qual Sancho manifesta o receio de que «alguna región de diablos... den con nosostros [i. e., com ele e com seu amo] en Peralvilho» (Blecua/Pozo, p. 898).

Agora, sim, julgo chegado o momento de reproduzir o verbete de Nascentes:

«Há um lugar chamado Peralvillo, não longe de Ciudad Real, onde a Santa Irmandade de Toledo seteava os salteadores de estrada; v. Quixote, II, cap. XLI. Talvez haja alguma relação com o vocábulo.»

Mais uma vez, estranha-se (ou já nem tanto) o facto de Machado não dar sinais de ter lido o verbete de Nascentes – ou talvez seja mais correcto dizer que não dá sinais de compartilhar o ponto de vista de Nascentes. O que mais importa é que entre as informações do verbete de Nascentes e as da nota de Giannini existem semelhanças excessivas, que não podem ser casuais. Como nenhum deles terá lido o outro, pode-se pressupor que ambos se serviram duma fonte comum. Posso praticamente garantir que ambos recorreram ao Covarrubias, ao qual remeto o leitor, poupando-o (e poupando-me) a uma citação do Tesoro de la lengua castellana.

Como se poderá ter passado do topónimo Peralvillo ao substantivo comum peralvilho, é um mistério que deverá ficar ainda por esclarecer: mas parece claro que só daquele topónimo poderia ter derivado o termo português – que aliás não existe em espanhol com o significado, que nós lhe damos, de ‘indivíduo afectado nas maneiras, no falar e no vestir’ (Costa/Melo, s. v.). Aqui fica a pista, portanto: para que eu próprio a possa bater no futuro, ou para outro que se revele mais afortunado ou mais arguto.

O último caso a considerar, nesta breve deambulação através do património lexical comum a lusos e a hispanos, é o da expressão envidar esforços. No cap. XXXIV da 2.a Parte, Sancho exprime a sua muito “burguesa” preferência, ainda que se veja alcandorado a governador, não pela caça, mas por divertir-se pachorrentamente a «giuocare nei giorni di pascua al < trionfo a quattro zampe > e alle bocce la domenica e le feste», na versão que o hispanista pisano (Giannini, II, 305) dá de «jugar al triunfo envidado las pascuas, y a los bolos los domingos y fiestas» (Blecua/Pozo, 855). Não será necessário recorrer a outras fontes que não a da nota 153, dedicada por Giannini precisamente a este triunfo envidado:

« Il triunfo o burro ( = asino) era un giuoco di carte molto in uso nei tempi del Cervantes. Si diceva envidado, allorché, spiega il Covarrubias, il giocatore metteva per posta quanto sul tavolo gli rimaneva della somma di denaro (envidar el resto). Lo ricorda il Guevara quale passatempo gradito negli ozi del villaggio (Menosprecio, cap. V), come pure il Figueroa nella Plaza Universal (1615). Conosciuto anche in Italia, lo ricorda il Tansillo nel capitolo In lode del Malcontento» – Giannini, II, p. 661.

Registe-se de passagem que ainda hoje é corrente em Portugal um jogo de cartas que se chama o burro ou o burro em pé, principalmente entre as crianças (ou entre adultos e crianças), muito popular devido à simplicidade do mesmo – mas isso não quer dizer que o jogo seja idêntico ao seu homónimo espanhol. No que concerne à tradução de «las pascuas», não me parece que Giannini tenha escolhido a mais feliz, sendo-lhe ligeiramente preferível a de Bodini, que a verte com «nelle feste solenni» (Bodini, II, p. 872); e ainda melhor teria sido não traduzir directamente a expressão mas antes uma sua paráfrase, igual ou semelhante à fornecida por Joaquín Forradellas (em Rico, I, p. 916), o qual a interpreta com «muy de vez en quando».

Deixemos a tradução de Giannini e a parte inicial da sua nota para nos concentrarmos sobre o aspecto que de momento mais importa, isto é, sobre envidar, que só ocorre em português, nos dias de hoje, em envidar esforços (e não só no infinitivo: os esforços envidados, envidei, envidaremos esforços, etc.). O que é curioso é que nenhum dicionário, normal ou etimológico que seja, nos dê a entender que envidar esforços tem sempre, em português, um sentido que deve ter vindo da acepção espanhola relacionada com o jogo. Mais uma vez, é possível que também neste submundo peninsular, o do jogo a dinheiro, existisse um léxico comum a Portugal e Espanha. Seja como for, o facto de só nos restar esta expressão com envidar, no português corrente, e para mais empregue sempre com o mesmo sentido, permite que lhe tracemos um claro percurso de evolução semântica: uma gradual metamorfose que podemos reconstruir, partindo das lúdicas acepções (lúdicas, sim, mas não tanto, pois não se tratava de “jogar a feijões”) de arriscar, apostar, para depois passar aos sentidos económico-jurídicos de empenhar, hipotecar e ir dar, enfim, aos de empregar, investir, empenhar(-se), em que mais fortemente se insinuam as dinâmicas do esforço, do cálculo e do compromisso, finalmente reduzidas ao âmbito do que não só é considerado socialmente lícito mas, até, “virtuoso”.



IV. Conclusão (lacónica e repetitiva)



A este ponto, nada mais me resta fazer do que insistir, muito simplesmente, numa prioridade que já antes expus em termos inequívocos: o imperativo de dedicarmos uma atenção cada vez maior à língua e à literatura espanholas, se quisermos entender melhor o português.






Bibliografia essencial[19]


1. Edições consultadas do Quijote, em língua original
Allen = Miguel de Cervantes, Don Quijote de la Mancha, edição (anotada) de John Jay Allen (2 vol.s), Madrid, Catedra (col. "Letras Hispánicas"), 1994.
Blecua/Pozo = Miguel de Cervantes, Don Quijote de la Mancha, edição de Alberto Blecua e Andrés Pozo (1 vol.), Madrid, Espasa Calpe ("Colección Austral"), 20003 (1.a edição, 1998).
Rico = Miguel de Cervantes, Don Quijote de la Mancha, edição do Instituto Cervantes, sob a direcção de Francisco Rico, com a colaboração de Joaquín Forradellas (2 vol.s, um dedicado à transcrição do texto e o outro a um seu amplo comentário "polifónico"), Barcelona, Instituto Cervantes – Crítica, 19982 (1.a ed., do mesmo ano).
Riquer = Miguel de Cervantes, Don Quijote de la Mancha, edição e notas de Martín de Riquer (1 vol.), Barcelona, Editorial Juventud (col. "Libros de Bolsillo Z"), 200015 (1.a edição, 1944).
Rodríguez
Marín =
Miguel de Cervantes, Don Quijote de la Mancha, edição e notas de Francisco Rodríguez Marín (8 vol.s), Madrid, Espasa-Calpe, 1966-7 (1.a ed. 1911).
 
2. Traduções italianas consultadas
Bodini = Miguel de Cervantes, Don Chisciotte della Mancia. Traduzione, introduzione e note di Vittorio Bodini. Con un saggio di Eric Auerbach. Illustrazioni di Gustave Doré (2 vol.s), Torino, Einaudi (col. "Einaudi Tascabili"), 200310 [1.a ed. em absoluto, Torino, Einaudi (col. "I millenni"), 1957].
Carlesi = Miguel de Cervantes, Don Chisciotte della Mancia. A cura di Cesare Segre e di Donatella Moro Pini[20]. Traduzione di Ferdinando Carlesi, Milano, Arnoldo Mondadori (col. "I Meridiani"), 19885 (1.a ed. em "I Meridiani", 1974; 1.a ed. em absoluto, Milano, Mondadori, 1933).
Giannini = Miguel de Cervantes Saavedra, Don Chisciotte della Mancia. Con le illustrazioni di Gustave Doré. Introduzione di Jorge Luis Borges. Premessa al testo di Roberto Paoli. Traduzione e note di Alfredo Giannini (2 vol.s), Milano, Rizzoli (col. "Biblioteca Universale Rizzoli"), 200112 (1.a edição na BUR, 1981; 1.a edição em absoluto da versão de Giannini, Firenze, Sansoni, 1924-7[21]).
 
3. Monografias várias
Bismut = Anón., Arte de Furtar. Edição crítica, com introdução e notas de Roger Bismut, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1991.
Camporesi = Piero Camporesi, La carne impassibile, Milano, Il Saggiatore, 1983.
Caravaglios = Beatrice Palumbo Caravaglios, Ricordo di Alfredo Giannini, Firenze, Sansoni, 1939.
Garrett = Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra, Lisboa, Editorial Estampa, 1983.
Rojas = Fernando de Rojas, La Celestina. Edición de Dorothy S. Severin, notas en colaboración con Maite Cabello, Madrid, Cátedra, 19904.
 
4. Acervo lexicológico básico
Battaglia = Salvatore Battaglia, Grande dizionario della lingua italiana, Torino, UTET, 1961.
Corominas = Joan Corominas, com a colaboração de José A. Pascual, Diccionario crítico etimológico castellano e hispánico, Madrid, Gredos, 1991.
Corriente = Federico Corriente, Diccionario de arabismos y voces afines en iberorromance, Madrid, Gredos, 1999.
Cortelazzo/
Zolli =
Manlio Cortelazzo/Paolo Zolli, Dizionario etimologico della lingua italiana, Bologna, Zanichelli, 1979.
Costa/Melo = J. Almeida Costa/A. Sampaio e Melo, Dicionário da Língua Portuguesa, Porto, Porto Editora, 19998.
Covarrubias = Sebastián de Covarrubias, Tesoro de la Lengua Castellana o Española según la impresión de 1611, con las adiciones de Benito Remigio Noydens publicadas en la de 1674, edição preparada por Martín de Riquer, Barcelona, S. A. Horta de Impresiones y Ediciones, 1943.
Domingos
Vieira =
Domingos Vieira, Grande Diccionario Portuguez ou Thesouro da Lingua Portugueza, Porto, Ernesto Chardron e Bartholomeu H. de Moraes, 1873.
Gonçalves
Viana =
Aniceto dos Reis Gonçalves Viana, Apostilas aos Dicionários Portugueses, Lisboa, Livraria Clássica Editora - A. M. Teixeira, 1906.
Holanda
Ferreira =
Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, Novo Dicionário da Língua Portuguesa, Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1975.
Machado 1981 = José Pedro Machado, Grande Dicionário da Língua Portuguesa, Lisboa, Amigos do Livro, 1981.
Machado 1999 = José Pedro Machado, Ensaios Literários e Linguísticos, Lisboa, Círculo de Leitores, 1999.
Malaca
Casteleiro =
João Malaca Casteleiro (coordenador), Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, Lisboa, Editorial Verbo, 2001.
Morais Silva = António de Morais Silva, Diccionario da Lingua Portugueza, Rio de Janeiro-Lisboa, Empresa Literária Fluminense, 1889 (1.a ed., 1789).
Nascentes = Antenor Nascentes, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, ed. do autor[22], Rio de Janeiro, 1932.
Rae = Real Academia Española, Diccionario de la lengua española, Madrid, Espasa-Calpe, 193616.
Tommaseo = Nicolò Tommaseo e Bernardo Bellini, Dizionario della lingua italiana, Torino, UTET, 1929.
   


 



Notas

[1] Pelo menos é nesse número que as computa Roberto Paoli, in GIANNINI, I, p. XC (em capítulo à parte, intitulado precisamente Le illustrazioni del Doré). É inútil procurar qualquer precisação do género na edição Einaudi. Quanto aos volumes da BUR, seja claro que não me pus a contar as ilustrações reproduzidas, do início ao fim; mas o cálculo que delas fiz, por alto, baseando-me num dos dois volumes, leva-me a considerar como bastante plausível que as gravuras de Doré se encontrem integralmente reproduzidas nessa edição.

[2] Alfredo Giannini, Nota del traduttore, in Giannini, I, pp. LXXVII-LXXVIII.

[3] Como aquelas em que se estabelecem paralelos despropositados entre ditados espanhóis e ditados italianos – v. n. 317 à p. 551 de Giannini, II – ou quando se citam, de todo desnecessariamente, os Canti popolari toscani de Giovanni Giannini – v. notas 90 e 105, respectivamente às pp.105 e 135 de Giannini, I.

[4] E merece destaque o facto de que as três versões italianas por mim consultadas, e que creio serem as três mais correntes, são todas de cunho toscano: também na Nota sul traduttore, os organizadores das mais recentes edições da "versão Carlesi" falam desta última como de um «Chisciotte < fiorentino >» - Carlesi, p. LXVII.

[5] Blecua/Pozo, p. 623; Giannini, II, p. 57.

[6] Pelo menos é o que se depreende – ainda que o RAE só fale de zarandajas como de «desperdicios de las reses» – do sub-artigo que o Corominas dedica a serondayas (s. v. serondo, a que somos remetidos da entrada zarandajas).

[7] E muito mais haveria a dizer sobre estas zarandajas que Sancho faz seguir a guirnaldas, se este fosse o lugar apropriado para isso: ficará para outra vez.

[8] Seja claro que eu de modo algum o temo, e antes pelo contrário; mas, se o leitor quiser ver até que ponto alguém o pode execrar, bastar-lhe-á ir inteirar-se da diatribe que lhe dedica o seiscentista Scipione Mercuri, e que é transcrita em Camporesi, pp. 150-1.

[9] No cap. XLVII da 2.a Parte (Blecua/Pozo, p. 940; Giannini, II, p. 397). E Carlesi, (o já referido tradutor da edição Mondadori) faz ainda pior, identificando-a com o minestrone! Donatella Moro Pini, no entanto, defende como pode, e com uma generosidade talvez excessiva, essa tradução muito - mas mesmo muito - aproximativa (in Carlesi, p. 1396, n. 4 ao cap. XLIX da 2.a Parte): «In effetti la cucina italiana non ha un piatto equivalente a questo, che, pur avendo l’aspetto di un minestrone, contiene, insieme alle verdure, vari tipi di carne». Ora, pelo contrário, bastará a consulta de um bom volume de cozinha regional italiana para nos darmos conta de que essa descrição assenta como uma luva à minestra maritata alla partenopea...
Aliás, a vantagem das traduções de Giannini e de Bodini é sublinhada pela atenta anotadora da edição corrente da tradução de Carlesi, que frequentemente compara, nas suas observações, as versões daqueles com as deste - acabando por demonstrar, quase sempre, a sua preferência pelas soluções adoptadas pelos primeiros.

[10] Mas desconfio que se trate daquela sua «ex-allieva» que, na doença, o amparou como «devota infermiera», de acordo com as palavras de testemunho com as quais Lucio Ambruzzi (o dos dicionários de italiano-espanhol e espanhol-italiano) resolveu contribuir para a composição desse encómio póstumo (v. Caravaglios, p. 18).

[11] As relações entre a Itália e a Espanha viviam então uma espécie de "primeiro idílio" (a que se seguiria aquele outro, bastante mais facinoroso, do período da Guerra Civil): não esqueçamos que em Setembro de 1923 se dava o golpe de Primo de Rivera, e que a direita se manteve no poder em Espanha, duma forma ou doutra, até à vitória dos republicanos nas eleições municipais de 1931.

[12] Nem esta obra, nem a pouco antes mencionada Portugalia de A. Coelho, constam da Bibliografia que Nascentes apresenta no início do dicionário.

[13] "Parente próxima", aliás, dos a Deus te encomendo e a Deus vos encomendo que originaram a interjeição adeus, assim como sucedeu com os adiós, addio, adieu, etc. das outras línguas românicas.

[14] O meu mestre e amigo Antenor Nascentes, originariamente publicado em «Romanitas», Rio de Janeiro, vol. 12 e 13, 1975, e agora disponível em Machado 1999, pp. 184-190.

[15] Machado 1999, p. 186.

[16] Ver o que Roger Bismut diz a propósito desta data, na sua edição crítica da obra: Bismut, pp. 35-7.

[17] Reproduzo fielmente a transcrição de Gonçalves Viana, pelo que diz respeito às suas citações do texto espanhol. Para o resto do seu texto em português, emendei "gralhas" e actualizei-lhe a ortografia (tanto neste caso como no da sua citação mais adiante transcrita).

[18] O autor acrescenta ainda uma informação que se não reveste para nós dum interesse imediato, mas que é demasiado preciosa para que me possa permitir ignorá-la. Diz, com efeito, no parágrafo seguinte: «Outra expressão, na qual a célebre locução figura, – atou as de Vila Diogo –, é censurada pelo autor das Infirmidades da lingoa [em nota sua: Silvestre Silvério da Silveira e Silva, Lisboa, 1754]». É expressão que nunca antes li ou ouvi, mas parece claro que aquele atou as... pressupõe igualmente a elisão de calças, com o mesmo significado de 'desatar a correr descalço'.

[19] Critérios básicos adoptados:
   – A ortografia dos nomes dos autores é actualizada, sempre que for caso disso, mas não a dos títulos das obras.
   – Para todas as obras se indica o número de volumes, a não ser que se trate de monovolumes, ou das obras integradas no acervo lexicológico básico.
   – Ainda no que concerne às obras do acervo lexicológico básico, mesmo que sejam constituídas por vários volumes, eventualmente com diferentes datações, indica-se sempre e apenas a data do primeiro.

[20] Segre é o redactor da Introdução, e D. M. Pini é a responsável pela Cronologia, pelas Notas e pela Bibliografia.

[21] Ou será 1923-7? Com efeito em Giannini, I, p. LXX, a data inicial indicada é a de 1923; mas pouco depois, a pp. LXXVII do mesmo volume, passa a 1924-7.

[22] Com as indicações de que se trata de uma «1.a e única edição» (beneficiária, aliás, duma segunda tiragem em 1955), e de que os depositários são as livrarias Francisco Alves, J. Leite, Machado, Briguiet e A Indústria do Livro.






— per citare questo articolo:

Artifara, n. 2, (gennaio - giugno 2003), sezione Monographica, http://www.artifara.com/rivista2/testi/aprendendo.asp


© Artifara

ISSN: 1594-378X



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