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Juan M. Carrasco, Mª Jesús Fernández, Mª Luísa Leal

I Congresso da ALEE (Associação de Lusitanistas de Estado Espanhol)

 

No passado mês de Novembro decorreu o I Congresso da ALEE. Esta associação surgiu como resultado do desenvolvimento que os estudos portugueses tiveram em Espanha nos últimos anos. Mais concretamente, a ideia surgiu no Congresso Internacional de História e Cultura na Fronteira organizado em 1999 pela Universidade da Extermadura, a última a pôr em marcha o curso de Filologia Portuguesa. A Associação constituiu-se no ano 2000 e nela participam todas as Universidades espanholas que possuem departamentos com especialistas neste âmbito.

O I Congresso da ALEE é a primeira grande actividade da Associação. Foi organizado em Palma de Maiorca pelo Professor Catedrático da Universidade das Ilhas Baleares, Prof. Doutor Perfecto E. Cuadrado Fernández. Aproveitou-se aquela oportunidade para eleger a nova Junta Directiva e para tratar diversos problemas que neste momento são motivo de grande inquietação nas Universidades espanholas, nomeadamente o de partilhar uma Área de Conhecimentos com os especialistas de Filologia Galega e os novos planos de estudo universitários, que devem adaptar-se à normativa europeia.

Um dos eventos mais relevantes que acompanharam as sessões do Congresso foi a apresentação do primeiro número da revista electrónica da Associação: Maresia. Neste número salientamos artigos de Stephen Reckert, Leodegário A. de Azevedo Filho, Elena Losada Soler e a transcrição de uma conversa entre os profesores Nicolás Extremera Tapia e Luisa Trias Folch com o poeta brasileiro João Cabral de Melo Neto. A revista poderá consultar-se na página web da ALEE: http://lusitanistas.galeon.com.

Neste primerio congresso da ALEE, contou-se com a presença de um vulto destacado como presidente de honra, Stephen Reckert, que abriu o encontro com uma conferência intitulada “Memórias de um iberista”, passando em revista, de maneira emotiva, a sua carreira profissional, resumo do encontro com nomes fundamentais da filologia espanhola e portuguesa do século XX.

As sessões científicas distribuiram-se pela tarde do dia 26 e ao longo do dia 27. A temática das comunicações foi muito variada, como seria de supor. Grande parte dos trabalhos apresentados centrou-se no comentário e análise literárias de obras e autores concretos pertencentes a várias épocas, que vão do Renascimento, como nas intervenções de Xosé Manuel Dasilva sobre a consideração de Camões como clássico espanhol, de Maria Rosa Álvarez, sobre a Menina e Moça de Bernardim Ribeiro, de Andrés Pociña e Mª José Postigo sobre Gil Vicente ou de Isabel Soler Quintana, sobre Garcia da Orta e a liberdade de pensamento, passando pelo Barroco, representado por D. Francisco Manuel de Melo e a sua relação com a literatura emblemática espanhola e portuguesa, analisada por Antonio Bernat Vistarini. Partindo do século XIX, com um trabalho sobre Eça de Queirós e as acusações de plágio em O Crime do Padre Amaro, estudadas por Maria de Lourdes Pereira, chegamos à contemporaneidade, com as comunicações de Perfecto E. Cuadrado Fernández sobre a poesia provocadora de Alberto Pimenta, a de Maria Luísa Leal sobre a poesia de Sebastião Penedo e Raul de Carvalho como construtores de um espaço mítico em torno do Alentejo, ou a de Jordi Cerdà Subirachs sobre a recepção de Fernando Pessoa no pós-guerra espanhol.

Embora menos representados, não faltaram trabalhos de literatura comparada, como os de Elena Losada Soler, que se debruçou sobre o símbolo de Mariana Alcoforado e as suas variações e paródias em obras posteriores como as Novas Cartas Portuguesas ou a poesia de Adília Lopes, e a de Fátima Fernandes da Silva, que associa a obra de Augusto Abelaira e Clarice Lispector em torno da representação do silêncio na escrita..

Também foram apresentados resultados iniciais relacionados com a edição crítica de textos de José Anchieta que está a ser levada a cabo, na Universidade de Granada, por Luisa Trías Folch –com uma comunicação intitulada “Para uma edição crítica das Cartas de José de Anchieta”– e Nicolás Extremera Tapia.

Vários autores trataram aspectos relacionados com a tradução: do ponto de vista da história da tradução, contou-se com a comunicação de Carmen Mª Comino sobre a tradução de El Quijote do Visconde de Banalcanfor (1877-1878) e com a de Mª Jesús Fernández sobre uma tradução espanhola de Viagens na Minha Terra, de 1861. No que diz respeito a aspectos estilísticos, há que referir várias comunicações onde se comparam diferentes versões de um mesmo texto, como a de Joan Alegret sobre um soneto de João Xavier de Matos ou a de Nicolau Dols e Gabriel de la S. T. Sampol sobre a tradução de Os Lusíadas da responsabilidade de Gullem Colom y Miguel Dols.

Os estudos linguísticos não tiveram uma representação tão forte, mas, ainda assim, o leque de aspectos relacinados com a língua portuguesa foi amplo: desde problemas relativos à história da língua, como os tratados na comunicação de Juan M. Carrasco González sobre a língua dos mouros no teatro popular português do século XVI, reflexo de uma língua franca falada na bacia mediterrânica, até questões de língua literária, como as tocadas por Pedro Comellas Casanova na sua intervenção sobre o português literário como base para um imaginário nacionalista nas antigas colónias africanas, ou, ainda, problemas de lexicografia, como os abordados por Alberto Vázquez Diéguez na sua dissertação sobre aspectos contrastivos entre dicionários bilingues espanhol-português.

Como pode ver-se, a variedade temática das intervenções dos lusitanistas espanhóis é reflexo da amplitude de interesses que o mundo da filologia portuguesa abarca. Este encontro serviu, entre outros fins, para pôr em comum diversos resultados de pesquisas e para a apresentação de linhas de investigação que estão a ser levadas a cabo pelas diferentes áreas de Filologia Portuguesa nas universidades espanholas e, neste sentido, o congresso demonstrou a vitalidade dessas áreas, cumprindo assim amplamente os seus objectivos de intercâmbio científico e humano.

 

 




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