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Gardel, uma lembrança
Manuel Puig
Edizione critica di Silvia Gambarotto
Nota preliminar
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Manuel Puig, La tajada. Gardel, uma lembrança, Rosario, Beatriz Viterbo, 1998 |
El escritor argentino Manuel Puig (1932-1990) escribió su comedia musical Gardel, uma lembrança en 1987 en portugués durante su estadía en Río de Janeiro (Brasil). La obra se estrenó en agosto de ese mismo año en el Teatro Galeria de la ciudad carioca. Inmediatamente, el autor pensó en una traducción de la misma en italiano. Con vistas a esta versión, poseemos múltiples indicaciones de mano de Puig, especialmente las enviadas por correspondencia a Marco Mattolini, empresario teatral italiano que se habría encargado de la puesta en escena y destinatario también de los textos de algunas de las canciones que Puig mismo había traducido "aproximadamente" del portugués al nuevo idioma. Es evidente que lo que se proponía el autor no era hacer una traducción cuidada en la forma y cantable, sino transmitir el contenido, dejando al traductor la labor de hacer la adaptación final del texto a la música. La primera traducción de Gardel, uma lembrança la realizó Vittoria Martinetto (estudiosa de literatura hispanoamericana y amiga del autor), labor que si bien no fue totalmente concluida, había comenzado a ser revisada por Manuel Puig, que seguía con interés este proyecto. Fue Angelo Morino (traductor) quien definitivamente llevó a cabo la tarea que fue publicada por Einaudi en 1993 con el título -creado por Puig- Tango delle ore piccole. Resulta que en esta obra -por lo que se refiere a su génesis y al período inmediatamente posterior- se combinan tres idiomas, a saber, portugués, castellano e italiano. En portugués está escrito el texto original, en castellano se han mantenido las letras de algunos tangos, y en italiano tenemos la larga serie de añadidos posteriores hechos por Puig más el texto de alguna canción. La presencia de un texto original base con las posteriores modificaciones, añadidos y cortes hechos por el autor, nos han estimulado a preparar la presente edición crítica que permite al lector atento observar la evolución de la obra. A nadie quepa la menor duda que, de no haber sido por su prematura desaparición, Puig habría seguido puliendo y ajustando este texto y -quién sabe- además de revisar personalmente la versión en italiano hasta su finalización, habría preparado una en castellano de puño y letra. A esta última tarea nos hemos dedicado con Angelo Morino durante los años 1994-95.
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Manuel Puig |
El lector que lea de corrido la presente obra se encontrará con el texto como quedó fijado en vida del autor. En nota, evitando ulteriores especificaciones salvo las estrictamente necesarias, proponemos la primera y, a veces, la segunda redacción -cuando la hubo-. Hemos querido incluir algunas anotaciones que nos parecieron significativas hechas por el escritor mientras revisaba la primitiva traducción en italiano efectuada por Vittoria Martinetto y que como signo de reconocimento hemos indicado con | |. Señalamos también en nota la versión correcta de algunas palabras o expresiones cuyo uso en el texto es erróneo, pero nos tomamos la libertad de corregir pequeños defectos ortográficos y/o de puntuación que aparecen en el original, adoptando algunos criterios de homologación en lo relativo a las acotaciones, que en nada afectan al contenido y desarrollo de la obra.
Queremos expresar nuestro especial agradecimiento a Marco Mattolini, quien, generosamente, nos facilitó todo el material del que disponía, y a Vera Lúcia de Mello Rodrigues, quien nos asistió a lo largo de todo el trabajo.
Silvia Gambarotto
L'Aquila, Italia, septiembre 1995
P R I M E I R O A T O
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ABERTURA. Música de tango («Don Juan» seguido de «El entrerriano»). Pano preto, entram pela esquerda dançando MADAME YVETTE (velha Madame) e SANTIAGO (velho rufião) seguem eles [1] seis prostitutas dançando também o tango, mas em fila feito Rockettes. Roupas de 1915. Parando de dançar. |
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| ELE |
Esse tango, meu carinho, |
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é quem [2] a lei do amor faz, |
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eu avanço direitinho |
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e você só vai prá traz [3] . |
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| M.YVETTE |
A lei do amor ensina |
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que o prazer da mulher |
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é navegar à deriva, nos braços... |
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(voltam a dançar) |
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| PROSTITUTA I |
Mil novecentos e quinze |
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Tango! proibido dançar |
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e prá mulher está proibido |
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avançar senão prá trás. |
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| ELE |
(parando de dançar) |
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Essa moça fala a toa |
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mas eu vou lhe ensinar |
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que a emoção mais profunda |
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é deixar-se dominar. |
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(pega a PROSTITUTA I e dançam) |
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| PROSTITUTA II |
É ele que [6] marca o passo |
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ela... recua sem olhar |
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a vertigem do perigo |
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faz ela se arrepiar. |
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| PROSTITUTA III |
Eu também quero uma prova |
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dessa profunda emoção |
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o tango é dança nova |
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mas velha é a exploração. |
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| ELE |
(parando de dançar) |
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Aqui estou prá servi-la, |
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quem fala em exploração? |
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você trabalha tranqüila |
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que eu faço a administração. |
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(Dança com PROSTITUTA II) |
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| M. YVETTE |
Ele administra o dinheiro, |
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e administra o amor, |
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esse é o homen que eu quero, |
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meu ídolo e meu senhor. |
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| PROSTITUTA IV |
Tudo bem, dancemos mesmo, |
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eu recuo sem olhar, |
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mas o que é que acontece |
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se eu paro de trabalhar? |
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| ELE |
(para de dançar) |
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Nesse caso, minha flor, |
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eu vou te administrar... |
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fome, sim, daquela pior |
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e medo, sim, de arrepiar. |
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| PROSTITUTA V |
Eu já estou arrepiada, [7] |
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que é o ponto principal, |
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pena que o tango é proibido |
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por ordem presidencial. |
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| ELE |
(volta a dançar com MADAME YVETTE) |
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Esse tango, meu carinho, |
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é quem [8] a lei do amor faz, |
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eu avanço direitinho, |
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e você só vai prá trás. |
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| M.YVETTE e TODAS |
A lei do amor ensina |
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que o prazer da mulher, |
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é navegar à deriva, nos braços... |
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daquele que a quiser! |
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(saem dançando pela direita) |
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Fim da ABERTURA Levanta-se o pano. |
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CENÁRIO. Sala de bordel de categoria, porém não muito sofisticado. Penumbra. A luz vem do fundo, de onde se ouve [9] ainda os sons do tango, insinuando que a dança continua. Entram, sub-repticiamente dois jovens -Carlos e Aurélio- com seus violões. |
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| AURÉLIO |
Não acenda a luz, que vão nos chutar daqui. |
| CARLOS |
Cale a boca e vê se encontra alguma comida. Você tem faro de bicho. |
| AURÉLIO |
(procurando) É a última vez que deixo por sua conta acertar o nosso cachê. Daqui por diante eu sou o teu empresário. |
| CARLOS |
(abrindo e fechando gavetas) Nessa casa ninguém come [10] nada. |
| AURÉLIO |
O comércio não dá tempo a elas. [11] |
| CARLOS |
Mas essas mulheres estão bem cheinhas. De ar é que elas não vivem. |
| AURÉLIO |
Vou direto [12] prá cozinha. Você fica aqui. E se vier alguém, me avisa. |
| CARLOS |
Se manda rápido. Estou morrendo de fome. |
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| AURÉLIO sai pela esquerda. Volta rápido. | |
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| AURÉLIO |
Tem cachorro lá. Por sorte não acordou. |
| CARLOS |
Que azar! Também, vou te contar. Que grande idéia essa de minha mãe de vir para a Argentina! Porra desse país. [13] |
| AURÉLIO |
Que conversa [14] é essa! Aqui não falta comida prá ninguém. |
| CARLOS |
Só prá nós, naõ é? |
| AURÉLIO |
(descobrindo um prato de frutas em cima de um móvel alto) Nem tanto, olha isso. |
| CARLOS |
(tomando uma fruta pequena) É. Migalhas não faltam. (Pequena pausa) Mas (batendo no peito) alguém que saiba apreciar o que é uma boa voz, isso sim, está faltando. |
| AURÉLIO |
(comendo) Volta prá terra de sua mãe, então. Vai prá França. Lá tem uma beleza de guerra. Entre uma bomba e a outra [15] , que vem logo depois, todo mundo vai apreciar muito a tua voz. Na Argentina pelo menos temos a paz [16] . |
| CARLOS |
Deixa alguma coisa prá mim, companheiro. |
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Ouvem-se passos e vozes que se aproximam. CARLOS e AURÉLIO se escondem. Entram o homem e a mulher -SANTIAGO e MADAME YVETTE-. |
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| SANTIAGO |
(de mau humor) Não me faças [17] repetir uma ordem na frente dos outros. Você está afogada em vinho. |
| M.YVETTE |
(um tanto bêbada, mas em tom irônico) Foi o tango. Dançar com você me sobe à cabeça que nem o álcool. |
| SANTIAGO |
Escuta. Essas são as ordens. Veem [18] de cima e são bem precisas. O Chefe não gostou nada da idéia de tirar essa mulher doente daqui. Com essa peste, mas [19] do que contagiosa. |
| M.YVETTE |
Mas a polaca vai morrer. A tísica é uma doença que mata. |
| SANTIAGO |
Prá mim tanto faz. E fale com a Nádia [20] que não me amole mais com essa estória de tirar a amiga doente daqui. Não quer morrer no bordel, mas gostava de viver aqui. [21] |
| M.YVETTE |
A Nádia prometeu tirar ela daqui sem ninguém perceber. A outra quer morrer lá fora, ter a sepultura em terra abençoada. |
| SANTIAGO |
O Chefe já ordenou, e eu com ele não discuto. |
| M.YVETTE |
Mas você é homem, não é? E homem não tem medo de homem. |
| SANTIAGO |
É que o Chefe e eu pensamos sempre da mesma maneira. Nunca temos diferença de opinião. (Em tom violento). Compreendeu? |
| M.YVETTE |
(submissa) Compreendi. (Pequena pausa) E o cantor? Não devo mesmo pagar nada a ele? |
| SANTIAGO |
Já disse que não. O pessoal aqui não gosta de tango cantado. Isso é uma novidade boba prá tirar grana dos otários. Tango cantado... quem já ouviu falar nisso? |
| M.YVETTE |
Me falaram que cantava bem. [22] Por isso deixei ele entrar quando bateu na porta. |
| SANTIAGO |
Mas já viu que a freguesia não deixou ele cantar. Esses bêbados só querem passar a mão legal nas polacas [23] , dançando. (Pausa) E agora me sirva um senhor bife. Estou com fome. |
| M.YVETTE |
A essa hora? |
| SANTIAGO |
(saindo em direção à cozinha) A essa hora! Você agora só sabe discutir. Não se esqueça [24] que [25] fui eu que te escolhi para dirigir essa casa. Ou você quer voltar para onde estava? [26] |
| M.YVETTE |
(entre tímida e irônica) É o efeito do tango que está passando. Mas deixa prá lá. [27] Nós dois [28] nunca temos diferença de opinião. (Saem). |
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| AURÉLIO e CARLOS saindo do esconderijo. | |
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| AURÉLIO |
Tinha bife lá! Só que cru. |
| CARLOS |
Mas agora vão fritar. Daqui a pouco vamos sentir o cheirinho. |
| AURÉLIO |
Fruta é mais saudável. (Pausa). |
| CARLOS |
Você ouviu o que diziam da moça? Será que é uma daquelas polacas que os jornais falaram? |
| AURÉLIO |
Não leio notícia policial. Só política internacional. |
| CARLOS |
Você não sabe ler, isso sim. |
| AURÉLIO |
Não, um belo dia leio a notícia que pegaram você, e aí vou ter que levar cigarros na cadeia. |
| CARLOS |
Sem brincadeira. Parece que chegaram muitas garotas de lá, enganadas. [29] Chegavam até com contrato de casamento. Um cara ia lá arrumava tudo na Europa, onde tinha muita moça no campo, refugiadas, sei lá, na Rússia. E aqui, o que tinham era esse trabalho. |
| AURÉLIO |
E daí? |
| CARLOS |
Daí é que quando elas chegavam, a polícia entregava elas para esses tipos. Tudo combinado. |
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Ouvem-se vozes de mulheres aproximando [30] . A música que havia ao fundo -na cena do baile- vai abaixando mais ainda o volume. CARLOS e AURÉLIO voltam a se esconder. |
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| PROSTITUTA I |
Adoro o tango. Os sujeitos cansam logo e vão prá casa cedo. |
| PROSTITUTA II |
(se atira logo sobre um sofá) Aniuska, você acha cedo mesmo? Eu estou arrebentada. |
| PROSTITUTA III |
É que você dá muita conversa prá fregues. Falar mentiras cansa mais que tudo. |
| PROSTITUTA II |
Katiuska bela. Essa é a minha especialidade. Sou a romântica da casa. |
| PROSTITUTA III |
Como pode te sair algo que não seja um palavrão para esses infelizes. Argentinos não merecem nada. (CARLOS tem um movimento de reação. AURÉLIO o contém). |
| PROSTITUTA I |
Se vai falar, fala a verdade. Homem nenhum merece nada. |
| PROSTITUTA III |
O que está falando, sua metida. Você só conhece macho argentino. Na nossa terra a vida foi bem outra. |
| PROSTITUTA II |
(á PROSTITUTA I) Deixa a Katiuska dizer besteira. O tango lhe faz sempre mal, como esse vinho daqui. (À PROSTITUTA II) Assim como tudo o que é daqui a nós todas... |
| PROSTITUTA I |
Eu não conheço só argentino. Aqui tem passado muito oficial da marinha do rei tal e da porra dos reis todos. Quanto mais escalão eles têm, pior [31] ficam. Velho dá mais trabalho. Homem não presta, mas paga. |
| PROSTITUTA III |
Escuta Anya. Argentino é o pior mesmo. São metidos a mandões como todos os outros e prá completar o negócio te fazem dançar o tango, correndo prá trás feito carangueijo sem jeito. |
| PROSTITUTA IV |
Às vezes eu acho gostoso, isso de ficar quase sentada no chão. |
| PROSTITUTA II |
(á PROSTITUTA IV) A Katiuska tem razão. Argentino é metido a mandar. Gosta do tango porque te leva assim prá trás, sem você saber onde vai cair no fim. Não gosta de dançar, nem de cantar. |
| CARLOS |
(aparecendo) Mentira, companheira. |
| PROSTITUTA V |
E você, quem é? |
| PROSTITUTA III |
Vai dando o fora. Essa é nossa hora de descanso, moço [32] . |
| CARLOS |
Você não tem direito de falar assim. (Pausa. Buscando um argumento). Aqui pelo menos não falta comida prá ninguém. Voltem prá terra de vocês, se não estão gostando daqui. Lá tem uma beleza de guerra, entre uma bomba e a outra [33] que vem logo depois, todo mundo vai cantar direitinho. |
| PROSTITUTA I |
Já manjei [34] . É o cantor que a Madame Yvette não deixou pegar no violão. |
| PROSTITUTA II |
Coitado... |
| PROSTITUTA III |
Se canta, então não é argentino. |
| CARLOS |
Sou. E canto também... |
| AURÉLIO |
(aparecendo) Só que não prá vocês. Ele só canta se alguém pagar. |
| PROSTITUTA II |
Olha isso. Ele tem empresário, como nós, meninas. |
| CARLOS |
(a AURÉLIO) Mas acontece que estou com vontade de cantar. |
| PROSTITUTA I |
Taí garoto, eu fiquei curiosa. O que você canta? |
| CARLOS |
Tango. |
| PROSTITUTA III |
Nossa Senhora... |
| PROSTITUTA V |
E o empresário dança comigo. (Rindo). Mas eu só aceito se me deixar ir prá frente. [35] |
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CARLOS |
Nada disso, o empresário vai é pegar no violão. [36] (A AURÉLIO). Vamos lá. |
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Començam a tocar. |
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| CARLOS |
(só fala no começo) Você pidiu prá min [37] cantar, eu me recuso, tango só dá prá dançar... Não vou cantar, eu não vou não, homem não canta, argentino ainda mais. (Cantando «Si soy así») |
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Você pidiu prá min cantar |
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eu me recuso, tango só dá prá dançar. |
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Não vou cantar, eu não vou não, |
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homem não canta, argentino ainda mais. |
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O argentino cuida sua fama [38] de macho |
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e jamais na vida eu acho |
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ele escuta o coração. |
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O coração, só tem que ser, |
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aquela bomba que o sangue faz mexer. |
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Nós os homens dessa terra, |
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garantimos a vocês, |
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maus tratos, chicotada e porrada, |
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cassetada [39] , punhalada, |
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tapa, soco e ponta pé. |
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E o que é isso de cantar que nem um galo? |
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Nem galo nem passarinho |
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nem coruja quero ser, |
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me respeite como homem |
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prá esse papo começar. [40] |
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As PROSTITUTAS batem palmas. Durante a canção NÁDIA aparece no alto de uma escada com um freguês, fica escutando o cantor, manda embora o freguês, se mostra impressionada, mas toma uma máscara zombeteiramente hostil. |
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| NÁDIA |
A gente trabalha [41] e os ricos se divertem. |
| PROSTITUTA I |
Nádia Alexandrova, não brinque, você é rica também. |
| PROSTITUTA II |
Pelo menos como nós. (Pausa). Olha menina, ele é argentino e assim mesmo canta. |
| NÁDIA |
Canta, sim, mas prá frente, como o homem dança o tango. Na vida as vezes canta-se... recuando. [42] |
| CARLOS |
Não comprendi bem. [43] |
| NÁDIA |
Estou falando [44] comigo, eu me compreendo e chega. |
| CARLOS |
(um tanto pensativo) Tenho outras canções, bem mais tristes. Até uma que fala [45] da garota que acredita num rapaz que depois a abandona e ela acaba caindo na vida. |
| NÁDIA |
É verdade! (Cáustica) Tem garota que cai porque um desgraçado dá nela um empurrão. Mas, moço [46] , tem muitas (olha as companheiras) que gostam de fazer o que estão fazendo, e não caíram, só pularam de alguma cama prá essa onde elas... dormem agora. |
| CARLOS |
Quer escutar esse tango? |
| NÁDIA |
Não. (tirando dinheiro do roupão) E aqui está. Nós aqui gostamos de pagar e de sermos pagas. |
| CARLOS |
Não, obrigado. [47] E também, prá essa nota eu não tenho troco. |
| NÁDIA |
Eu nunca dou troco, nisso somos iguais. Eu sempre fico com tudo. |
| AURÉLIO |
Carlos, vamos já. |
| CARLOS |
Um momento só. (À NÁDIA) E ninguém reclama? |
| PROSTITUTA III |
Ela diz que não... |
| PROSTITUTA V |
De mim reclamam. Até os vinténs. |
| NÁDIA |
Escuta. Tem muitas maneiras de dar um troco. Mas tem uma que é a pior. |
| CARLOS |
Fala. |
| NÁDIA |
(Pega um pandeiro russo pendurado como ornamento na parede, em meio a outros). Na nossa terra tinha muita cigana. Uma vez uma me disse: "atenção, não aceite nunca nota alta demais. Ela vai te trazer azar, porque esse sujeito [48] espera o troco". [49] A cigana tinha razão, um dia apareceu um sujeito com aquela nota, alta demais. (Pausa. Dá de ombros) Paciência... |
| CARLOS |
Ainda não falou qual é o pior... dos trocos. |
| NÁDIA |
Às vezes aquela nota alta demais está esperando troco de carinho. Mas isso não se compra... e menos ainda se dá... de troco. |
| PROSTITUTA V |
Nádia, deixa ele cantar mais. Nós estamos gostando. |
| CARLOS |
(a PROSTITUTA V) Ela não quer escutar o tango da moça abandonada. Já manjei [50] . |
| NÁDIA |
Garoto. Essa moça não está aqui. Você errou. [51] Aqui ela não mora. Aqui todas chegamos porque isso queríamos. E que vida melhor do que essa! Acordar tarde, dormir tarde, e só pensar no prazer. |
| CARLOS |
O prazer do cara que paga. |
| NÁDIA |
Aí é que você se engana. Nós aqui nos divertimos á beça. (Com o pandeiro na mão). Escuta aqui. |
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Fundo de música cigana russa. |
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(Falando) Pelas ruas de Buenos Aires, se fala ciciando de uma casa es-pe-ci-al, especiais são seus fregueses, especiais os seus serviços, especial satisfação. Mas atenção, senhores, lá no final, contem certo quantos pesos vocês dão. (Canta) |
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Pelas ruas de Buenos Aires |
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se fala ciciando de uma casa |
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es-pe-ci-al, |
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especiais são seus fregueses, |
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especiais os seus serviços, |
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especial satisfação. |
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Mas atenção, senhores, lá no final, |
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contem certo quantos pesos vocês dão... |
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Troco! o senhor pede troco? |
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espera uma nota? moedas? |
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ou espera amor? |
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Troco! o senhor não se engana? |
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Comprou só dois beijos, |
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carinhos... uns trés. |
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Também tinha direito |
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a solenes promessas |
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de fidelidade... que já lhe fiz |
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Mas olha... o que o senhor queria |
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é que isso tudo... fosse real. |
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(Falado) |
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Coitado! Coitado do senhor! |
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(Cantado) |
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Chega! São todas mentiras! |
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essa ilusão... não adianta mais... |
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Puxa, até sinto inveja, |
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que o senhor consiga |
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se enganar... |
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Terminada a canção todos riem e aplaudem. |
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| Continua |
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Note
[1] La versión correcta sería: seguem-nos
[2] La versión correcta sería: o qué
[3] La versión correcta sería: trás
[4] La versión correcta sería: daquele que a quiser
[5] d'aquele que a merecer.
[6] La versión correcta sería: quem
[7] Olha, então tem arrepio,
[8] Ver nota 2.
[9] La versión correcta sería: ouvem
[10] papa
[11] O comércio não lhes dá tempo.
[12] Eu vou mesmo é
[13] Terra de porra.
[14] negócio
[15] La versión correcta sería: uma bomba e outra
[16] La versión correcta sería: temos paz
[17] La versión correcta sería: faça
[18] La versión correcta sería: Vêm
[19] La versión correcta sería: mais
[20] En un primer momento, Manuel Puig había dado a este personaje el nombre de Yankele. Nosotros efectuamos sistemáticamente la substitución.
[21] Añadía: Sinto muito se mudou de idéia.
[22] Recomendação do Chefe ele não tinha, mas me falaran que cantava bem. (...)
[23] moças
[24] Se lembre
[25] La versión correcta sería: de que
[26] Añadía: Antes você era mais obediente, minha querida.
[27] Añadía: Você e eu pensamos sempre da mesma maneira.
[28] Nós
[29] Parece que chegaram muitas garotas de lá. Elas vinham entrando aos poucos, enganadas.
[30] La versión correcta sería: se aproximando
[31] La versión correcta sería: piores
[32] cara.
[33] Ver nota 15.
[34] liguei.
[35] Mas eu aceito se me fizer ir só prá frente.
[36] O empresário vai é pegar no outro violão.
[37] La versión correcta sería: eu. Ver también primer verso de la canción.
[38] La versión correcta sería: cuida da sua fama
[39] La versión correcta sería: cacetada
[40] Como podemos observar, Puig escribió una letra completamente nueva para ser cantada con la música de «Si soy así». Pero en un primer momento había incluido el tango tal como nosotros lo conocemos según la versión de Gardel. Lo transcribimos a continuación como lo registró el escritor en la primera redacción de la comedia, con algunas variantes respecto a la versión gardeliana, que indicamos al lado:
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Si soy así, qué voy a hacer... nací buen mozo y embalao para querer. Si soy así, qué voy a hacer, con las mujeres no me puedo contener.
Por eso, nena, no sufrás por este loco Por eso tengo la esperanza que algún día que no asienta bien el coco me toqués la sinfonía y olvidá tu metejón. de que ha muerto tu ilusión.
Si soy así, qué voy a hacer... es el destino que me arrastra a hacerte infiel. (...) a serte infiel.
Cuando veo una pollera, Donde veo unas polleras no me fijo en el color, las viuditas, las casadas y solteras, para mí son todas peras en el árbol del amor...
Y si las miro, coquetonas por la calle, con sus ojos tan porteños, y su talle cimbreador... le acomodo, el camuflage de un piropo de mi flor.
Si soy así, qué voy a hacer... pa' mí la vida tiene forma de mujer. Si soy así, qué voy a hacer, es Juan Tenorio, que hoy ha vuelto a renacer...
Por eso tengo la esperanza que algún día Por eso, nena, no hagas caso de este loco me toqués la sinfonía que no asienta más el coco de que ha muerto tu ilusión. y olvidá tu metejón.
Si soy así, qué voy a hacer, tengo una esponja, que en el cuore, hay que tener. tengo una esponja donde el cuore hay que tener. |
Transcribimos a continuación una traducción al italiano "aproximada" (como la definió el mismo Puig) del texto creado por el escritor que este preparó con vistas a la versión en ese idioma de la obra:
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Voi mi chiedete di cantare, io mi rifiuto, tango soltanto si balla, io non canterò, assolutamente no, l'uomo non canta, e argentino ancora meno.
L'argentino cura la sua fama di maschio, e giammai nella vita io trovo che lui ascolti il cuore.
Il cuore dev'essere soltanto quella pompa che muove il sangue.
Noi gli uomini di questa terra, diamo garanzia a voi di darvi strapazzi, frustate e pugni, sberle, pugnalate, schiaffi, cazzotti e calci.
E cos'è quello di cantare come un gallo? Né gallo né uccellino né civetta voglio essere, rispettatemi come uomo se volete incominciare a parlare. |
[41] | Io lavoro |
[42] Canta sim, mas chorar, não chora.
[43] E por que devo chorar?
[44] | Parlo |
[45] | Ho un'altra canzone molto più triste. Parla (...) |
[46] cara
[47] Obrigado, não.
[48] o cara
[49] Añadía: Mas o cara pintou, a nota também.
[50] liguei. Ver nota 34.
[51] Añadía: Talvez possa te dar inspiração prá outros tangos. Mas aqui ela não mora.